Arquivos de Categoria: Mulheres e Bem-Viver

Os usos da raiva para resistir!

Em tempos de tanto ódio é comum ver que as pessoas comprometidas com uma visão de mundo transformadora e igualitária reivindicando o amor. A intelectual bell hooks fez formulações fundamentais em torno do amor e a ideia é que falemos mais sobre isso em outro texto. Mas aqui, hoje, e também mobilizando formulações de bell hooks, eu pretendo falar sobre a raiva. Diferente do que podemos imaginar, a raiva não é o antônimo ou o par antagônico do amor....

Meu corpo é um quilombo!

O sorriso, as manifestações culturais, a produção epistêmica, a reivindicação da negritude são formas de ser e existir negro que remetem à resistência de Ganga Zumba, Zumbi e Dandara.   Muitas foram as vezes que vi pessoas questionando a resistência construída historicamente pelas populações negra e indígena. Gente que acha que a resistência só acontece obedecendo a um modelo, em geral bem ocidental: aquela...

Virá que eu vi! Brasil, Terra Indígena

Quando pequena, acho que como a maioria de nós, me lembro de sempre voltar para casa no dia 19 de abril com um "cocar" de cartolina e pinturas no rosto. Um dia intensamente lúdico e absurdamente acrítico, em que aprendíamos uma história sobre "índios" (sic) que "viveram" no Brasil e que trocaram presentes com os "viajantes" portugueses que acabaram nessas terras por um erro de bom planejamento de viagem. As professoras nos ensinavam dancinhas, "jeitos de falar" dos "índios" (sic), reforçando o que...

Um 08 de março para se levantar contra as guerras

Não há saídas e construções positivas enquanto mulheres sejam vítimas de atrocidades. O que era um dia, se tornou um mês. Hoje, falamos que março é mês das mulheres. Mesmo que sejamos nós as responsáveis pelo cuidado e trabalhos reprodutivos no mundo, força central para a sustentação sistêmica, para a manutenção da força de trabalho e, portanto, deveríamos ter a igualdade de reconhecimento todos os dias. A data se...

Como pensar em futuros possíveis quando a barriga grita a fome?

A barriga tem que estar cheia para que possamos prospectar e esperançar o amanhã.   Ao buscar fixar uma grade, ou melhor, um itinerário reflexivo sobre futuros possíveis nessa coluna, já logo queria falar de propostas outras e diferentes, proposituras um tanto subversivas diante do modelo de sociedade em que vivemos, considerado inescapável. Mas percebi que antes de qualquer proposta, seria importante articular algumas premissas. ...

Futuros possíveis, parte 1: a vida já ocorre onde seria improvável viver

Construir futuros possíveis passa por negarmos uma ideia de inclusão em um mundo baseado na exclusão.   Quando fui instada a pensar sobre “futuros possíveis” tive muitas dificuldades. A conjuntura atual no país não é das mais animadoras para vislumbrar cenários de possibilidade. Daí, então, me lembrei da artista plástica e pensadora Jota Mombaça, em seu recente livro “Não vão nos matar agora”, em que ela enuncia: ...

Direitos humanos para diversos humanos: um convite à reflexão

A temática dos Direitos Humanos, em geral, é bem controversa. Muitos são os que têm a ideia de direito humano como algo que posicionasse seres humanos no topo de uma cadeia, numa perspectiva limitada e hierárquica. Já adianto que essa não é a perspectiva desse texto. A pergunta inicial não esconde: para além dos marcos importantes já alcançados na concepção de direitos humanos hoje, ainda muitos são os avanços necessários, como compreender que é preciso reconhecer povos, grupos e...

O que é “consciência negra” e por que ela é necessária?

O mês de novembro ganhou um outro significado no Brasil. Hoje, é comum que o chamemos de “novembro negro” ou “mês da consciência negra”. Junto a isso, e principalmente com o crescente das demandas por direitos da população negra e de que é necessário ter uma atitude proativa em relação ao racismo, muitos são os discursos reacionários que falam em “dia da consciência humana” e, os mais conservadores, questionando a não existência de um “dia da consciência branca”. Não é...

Novembro Negro chegou. Vamos falar sobre os bilionários?

Para fazer um bilionário, é preciso de milhões tenham suas vidas precarizadas. E chegamos no mês de novembro. Há cerca de 20 meses que vivemos e somos impactados pela pandemia da covid-19, e a maneira como nos relacionamos mudou muito. Em meio a pandemia, muitas coisas ficaram mais evidentes. Enquanto alguns achavam que a pandemia inspiraria o melhor de nós, e sairíamos dessa com a humanidade quase que restaurada por valores como solidariedade,...

Consumo consciente: da ação individual para a luta coletiva

Por que comprar algo? O que comprar? Como comprar? De quem comprar? Como usar? E como descartar? Essas são as perguntas balizadoras para um consumo consciente.   Por algum tempo, quando ouvi falar em “consumo consciente”, pensei que havia encontrado a chave para a solução dos problemas da humanidade. Nesse período, acreditava piamente que se todo mundo fizesse um bocadinho só, conseguiríamos dar conta de muitos dos...

Brasil diferente?

O Brasil está regredindo ao período das invasões coloniais e sanguinárias. E precisamos acordar.    “Nós estamos em guerra. Eu não sei porque você está me olhando com essa cara tão simpática. Nós estamos em guerra. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando....

#LutaPelaVida: de que independência estamos falando?

Desde o dia 22 de agosto, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, APIB, realiza a maior mobilização de povos indígenas com o grito: “nossa história não começa em 1988!”, em luta  contra o Marco Temporal, que está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) – que estabeleceria que os povos originários só poderiam reivindicar terras ocupadas até a aprovação da Constituição de 88 – e, mais do que isso, mobilizados em defesa da vida e da democracia. Conforme texto divulgado...

Pensar globalmente, agir localmente.

“Pensar globalmente, agir localmente”. A frase pode até ter se tornado um clichê, um senso comum, mas ainda carrega um intenso e importante significado diante dos desafios cotidianos para a manutenção da nossa existência no planeta. O responsável por ela foi o sociólogo alemão Ulrich Beck, em suas reflexões sobre o processo de globalização, e carrega ideias como participação, colaboração e solidariedade. Ou seja, pela aproximação e o encontro de culturas e identidades locais...

Feminismo e mudanças climáticas: o que isso tem a ver?

Estudos têm demonstrado que maneiras urgentes para mitigarmos e termos maiores condições e capacidades formulativas para lidar com as mudanças climáticas passam pela participação e o empoderamento feminino. Há quem tente, mas não é mais possível negar que vivemos na era das mudanças climáticas. Há quem tente emplacar o negacionismo sobre o que vivemos, inclusive, com espaço em colunas de grande projeção. Sempre que vejo o negacionismo das...

Julho das Pretas: Viva Tereza de Benguela!

Desde 2014 que o dia 25 de julho é o Dia Nacional Tereza de Benguela. Para que seu espírito inspire todas nós. A data não foi escolhida à toa. Desde 1992, após a realização do 1o Encontro de Mulheres Negras da  América Latina e do Caribe, na República Dominicana, que o dia 25 de julho é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esse marco é importante...

Quando ateiam fogo em uma mulher trans, ateiam fogo em todas nós!

 Na semana passada, Roberta, mulher, pessoa em situação de rua, foi queimada viva por um homem jovem. E, me pergunto: por que não ficamos todas nós indignadas?   Os tempos não estão nada fáceis. Mas me pergunto constantemente: quando eles não foram difíceis? A sensação de dificuldade, de piora das coisas, ou mesmo de sua melhora, pode ser considerada relacional a quem vive, a quem sente. Quando falam em avanço da repressão, do Estado...

Uma criança yanomami morreu! Poderia ser seu filho. Poderia?

Um breve desabafo diante da epidemia da falta de empatia e da naturalização da violência em nosso país.    “Nunca vivemos, como os brancos, em terras ardentes e sem árvores, percorridas por máquinas em todo lugar. No primeiro tempo, nossos maiores viviam sozinhos na floresta, longe das mercadorias e dos motores. Essas fumaças de epidemia têm um cheiro ruim que cortou o sopro de vida deles.” ...

A mãe Terra está esgotada: por uma outra ética do viver

A maternidade desromantizada é a maternidade em que nos percebemos sujeitos de trocas, de construção de símbolos e de convívios, em que a ética do cuidado é recíproca. Estamos em dívida com os nossos pares no planeta. Em determinados momentos, podemos, inclusive, nos perguntar quem, de fato, seria a praga que coloca em risco a existência na Terra. Mas, tão logo, podemos aludir às reflexões de Aílton Krenak,...

A floresta vive. E precisamos reaprender a ouví-la.

Lá pelos meus 5 ou 6 anos, notei algo de diferente em minha bisavó. Diferente de minha avó, tias-avós, tios-avôs, de minha mãe e tias, minha bisavó não tinha a pele tão escura, apesar de sua cor me lembrar a terra. E, diferente dos nossos cabelos crespos, minha bisa tinha os cabelos lisos. Totalmente absorvida por aquele estranhamento, eu perguntei à minha avó Dice porquê ela era diferente de nós, pretinhos: “Porque a bisa é índia.” Minha única referência de índio (sic) naquela...

Entre feminismos e mulheragens: as respostas para a crise

O feminismo é a lente para que seja possível reinventar toda a sociedade. O momento atual é muito difícil. Vivemos com se em uma turbulência que não cessa e com intensos momentos de queda livre. Ao afirmarmos que a Terra é um organismo vivo, estamos deixando de lado a subestimação dos nossos impactos nela. Se as relações são violentas entre nós, elas são brutais na relação com a Terra. E a conta vem chegando....