#LutaPelaVida: de que independência estamos falando?
Mulheres e Bem-Viver

#LutaPelaVida: de que independência estamos falando?

#LutaPelaVida: de que independência estamos falando?

Desde o dia 22 de agosto, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, APIB, realiza a maior mobilização de povos indígenas com o grito: “nossa história não começa em 1988!”, em luta  contra o Marco Temporal, que está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF) – que estabeleceria que os povos originários só poderiam reivindicar terras ocupadas até a aprovação da Constituição de 88 – e, mais do que isso, mobilizados em defesa da vida e da democracia. Conforme texto divulgado na página da entidade, os povos originários estão em luta mesmo diante de uma pandemia, porque há um vírus mais perigoso: o de uma política genocida praticada pelo atual governo federal. Assim, lançaram a “Primavera Indígena”, ocupando constantemente Brasília e que culminará na mobilização de mulheres indígenas de 7 a 11 de setembro, sob o lema: “As originárias reflorestando mentes para a cura da Terra”. O julgamento segue e a mobilização presencial em Brasília também. Mas, para além disso, estamos todas e todos convocados a contribuir com essa mobilização, também, nas redes sociais. A luta dos povos originários não é uma luta apenas por suas vidas, que já são imensamente valiosas como guardiões da Terra, mas por todas e todos nós. É uma luta que transcende a defesa da Amazônia, porque uma luta contra a destruição de todo o nosso planeta, sendo nós incluídos nesse círculo de vida. É uma luta que apresenta um outro projeto, modo de ver e viver o mundo. E o que isso tem a ver com discutir a independência do país?

Em um momento em que se ataca todo tempo e em que se tenta, a todo custo, intensificar violências contra os povos originários, falar de independência se torna uma importante pauta. Afinal, nos tornamos independentes de quem e para atender quais interesses? A ideia aqui não é  contar a história da independência. Isso, deixamos para as escolas e historiadores. Mas, se por um lado foi o desejo e descontentamento das elites que impulsionou um processo que culminou em 1822, de independência de Portugal; por outro, podemos pensar na guerra que está sendo travada desde o momento em que o primeiro navio português aqui aportou e reivindicou terras como se povos, histórias e culturas por aqui não existissem. Então, independência de quem, para quem e para o quê? Se gritaram independência às margens de um riacho, a partir de um contexto de confisco e invasão de terras brasilis já povoadas, quem deveria gritar independência e sobre o quê?

Seguimos dependentes de uma série de dinâmicas econômicas e culturais, nas quais países que se reivindicam desenvolvidos – em um modelo global de organização político e social que hierarquiza sociedades, povos e nações – impõem o que querem importar, como querem importar, como devem ser estabelecidas relações comerciais, culturais e sociais e lançam seu forte poderio econômico e, muitas vezes, também bélico –  às custas de séculos de acumulação de roubos de nossas terras e de outros povos da América Latina, de África e do Oriente Médio – para determinar dinâmicas de trocas e do que exportam a nós. Ou seja, seguimos como colônia. Ainda exportando primários, enquanto temos grupos dominantes subalternizadamente vira-latas que apoiam entraves ao nosso bem-estar e desenvolvimento de tecnologias, obrigando-nos a importadores do que considera-se ocidentalmente avançado. A balança é desigual. Mas, ao mesmo tempo, se apoiamos os povos originários em luta na capital brasileira e em vários cantos do globo, também precisamos nos questionar sobre o que significaria para nós igualar essa balança. Seria com ampliação da concentração de renda, com o fortalecimento do agronegócio e da devastação? Ou seria rompendo e gritando independência em novos riachos brasileiros diante de um modelo de sociedade exploratório e exterminador?

Quando falamos de uma outra forma de independência, não estamos abrindo mão das dinâmicas de trocas e somas com outros povos e nações, de tecnologias e matérias, de conhecimento e cultura. Mas estamos falando da necessidade de declarar independência a um modo de viver na Terra que, se parece atingir apenas os povos originários, coloca em risco a manutenção de toda a vida. É sobre usarmos menos “eles” e nos percebermos mais “nós”.

Ao fortalecer a luta das mulheres indígenas contra o marco temporal, pela defesa da vida e da democracia – que é o que esperamos que você que nos lê faça na próxima semana –, pense que não se trata de uma questão emergencial, mas de uma ação que demanda uma profunda reflexão sobre o 7 de setembro e sobre o tipo de sociedade que queremos ser. Significa gritar independência frente a um modo de consumir e viver que degrada, hierarquiza, violenta e destroi. Significa gritar independência para fortalecer as florestas e, fundamentalmente, a vida. Lute pela vida.

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