Brasil diferente?
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Brasil diferente?

Brasil diferente?

O Brasil está regredindo ao período das invasões coloniais e sanguinárias. E precisamos acordar. 

 

“Nós estamos em guerra. Eu não sei porque você está me olhando com essa cara tão simpática. Nós estamos em guerra. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum. É guerra em todos os lugares, o tempo todo.”

(Ailton Krenak, em “Guerras do Brasil.doc)

 

Há alguns dias, o chefe de Estado brasileiro fez o discurso de abertura da 76a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmando que apresentaria um “Brasil diferente”. Minha pergunta logo foi: mas diferente para quem? E diferente em quais parâmetros? Logo, esse discurso me remeteu a afirmativa de Aílton Krenak de que “estamos em guerra”. Uma guerra de cosmovisões, uma guerra de mundos, uma guerra em que o atual governo, que ocupa e dilapida o Estado brasileiro, sabe que está. E está mais do que na hora de sabermos que também estamos e de qual lado guerrearemos. 

O Brasil apresentado para o mundo me deixou envergonhada. Não porque os ideais de liberdade e prosperidade não sejam desejosos para mim. Mas porque é um Brasil que não existe. Talvez, como sonho em mentes um tanto perturbadas, já que a ideia de liberdade e prosperidade ali defendidas não são as mesmas que as minhas. Não há como falar em prosperidade quando o desmatamento cresce, enquanto milhares de indígenas precisam marchar e acampar para lutarem por suas vidas e pelas nossas – sem o nosso devido apoio. Como disse Krenak, no mesmo documentário da citação que abre esse texto, “O Brasil é uma invenção” e segue sendo fantasiosa na mente carregada de fake news e confusão de alguns que ocupam o poder. 

Nosso inventado país nasceu da invasão e do roubo de terras, do extermínio de vidas. Isso mudou? Segundo o Observatório do Clima, que existe desde 2002 e reúne mais de 68 organizações, os incêndios florestais bateram recorde nesse 2021, chegando a mais de 10mil km2 destruídos. Se o discurso anunciava liberdade, a realidade era outra. O chefe de Estado afirmava fantasiosamente que indígenas vivem da agricultura e que a maioria estaria vacinada – sendo que sequer o próprio, aparentemente, está vacinado. Um reflexo das dificuldades que seu governo impõe para que o esquema vacinal avance em nosso país. 

Essa realidade de intensificação do genocídio indígena e negro foi amplamente anunciada em 2018 e houve quem não quis acreditar. Quando penso que pessoas avaliavam algumas declarações como “brincadeiras” para terem suas mentes tranquilas pelo fato de estarem decidindo o voto por atrocidades, eu penso o quanto ainda precisamos avançar e crescer como país, no entendimento de que a liberdade deve ser para todos e não apenas para nós mesmos e para quem gostamos, de que a nossa compreensão sobre democracia seja tão deturpada.

Não há prosperidade, mas fome. No país dos mais de 600mil mortos pela covid19, a fome em sua forma grave atingiu mais de 9% dos brasileiros. Segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), quase metade dos brasileiros conviveu com algum nível de insegurança alimentar em 2020. Mas de que Brasil próspero o Presidente estava falando? Talvez, o Brasil diferente para o agronegócio. Enquanto a fome aumenta, o agro é o setor que mais cresce no país – cerca de 24% em 2020, segundo a Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil. 

Não há prosperidade, há mortes. Segundo o Monitor da Violência, parceria entre o G1, o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, houve aumento de 5% nos homicídios no Brasil, ficando em 43.892 mortes – 78% causadas pelo uso de armas de fogo e tendo como vítimas 91,3% de homens, 76,2% de negros e 54,3% de jovens. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresentou um número alarmante sobre a posse de armas nas mãos de civis, com 186.071 novas armas nas mãos da sociedade civil em 2020 (um aumento de 97,1%, em relação a 2019). 

Não há liberdade, mas leis sendo aprovadas para persecução e diminuição da liberdade de expressão. Segundo o Relatório Global de Expressão, divulgado pela ONG Artigo 19, há uma “redução progressiva daquilo que a gente chama de liberdades públicas”, nas palavras da diretora-executiva da organização, Denise Dora. Como avaliar isso? Por ataques cotidianos e mais intensos à imprensa. A ong contabilizou mais de 400 ataques proferidos diretamente pelo chefe do Executivo e seus Ministros à jornalistas e à imprensa. Além de muitas questões sobre dificuldade no acesso à informação ampliadas sob o atual governo. 

Muitas outras questões poderiam ser proferidas aqui como exemplos de que, em verdade, o Brasil não está nada diferente. A meu ver, estamos regredindo àquele período das invasões coloniais, de guerras escancaradas, sanguinárias e exterminadoras. Seguimos sob uma lógica em que elites insistentes no escravismo, no extrativismo e na exportação e venda do Brasil estejam a frente da dilapidação de nossas riquezas a partir do nosso empobrecimento, da piora da qualidade de vida da maioria. O Brasil segue sob invasão, em que “os brancos” seguem sem educação, cheios de má intenção e no exercício do assalto e do apagamento. 

Talvez, e eu quero crer nisso, o Brasil diferente esteja no fato de que estamos sendo acordados pelos encantados de que estamos em guerra, de que essa guerra nunca acabou e que precisamos de mais soldados atentos e dispostos; que precisamos ser combatentes nessa guerra se queremos viver num outro mundo, em que liberdade e prosperidade não sejam palavras de efeito, esvaziadas em um discurso ilusório que foi proferido como bofetadas em nossas caras e cabeças. Tá na hora da gente acordar e se posicionar se a gente quer mesmo um Brasil diferente.

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