Por onde a gente começa? Mulheres negras e Bem Viver
Mulheres e Bem-Viver

Por onde a gente começa? Mulheres negras e Bem Viver

Por onde a gente começa? Mulheres negras e Bem Viver

É necessário um outro modo de ver e viver o mundo, ou, como a própria carta versa “um novo pacto civilizatório” que imprima uma “outra gramática política”.

O que teria a ver uma marcha de mulheres negras e a proposta de Bem Viver? Muita coisa. Em sua carta final, a Marcha de Mulheres Negras, de 2015, começa evocando ancestrais, povos encantados e originários, povos tradicionais. E o que isso significa? Que é necessário um outro modo de ver e viver o mundo, ou, como a própria carta versa “um novo pacto civilizatório” que imprima uma “outra gramática política”.

Em 2014, escutei pela primeira vez a palavra “bem viver”. Naquele momento, jurava que seria algo relacionado ao bem-estar e tão somente isso. Não fazia ideia da potência enquanto projeto e visão de mundo que essas duas palavras somadas trazia. Apenas em 2015 que esse conceito ressurgiu em meu vocabulário e soube que muita coisa das formulações sobre o bem viver tinham tudo a ver com meus incômodos, vontades e projeções entre o mundo que vivo e o mundo que quero viver. E, então, decidi buscar conhecer mais sobre essa instigante proposta. Nesse mesmo ano, aconteceu a primeira Marcha das Mulheres Negras, em novembro, reunindo mais de 50 mil mulheres de todos os cantos do país sob o lema: “Contra o racismo, a violência e pelo Bem Viver”.

A princípio, pode-se pensar que a proposta do Bem Viver esteja apenas ligada aos povos originários encantados. Mas, como aponta Alberto Acosta, em seu livro “O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos”, essa é uma proposta que em muito pode se complementar e imbricar com outras formulações questionadoras do atual modelo de produção, exploração e acumulação em que vivemos e que é totalmente excludente.

Mas por que mulheres negras decidiram, justamente, propor o Bem Viver como bandeira de uma marcha histórica? O Bem Viver provém de formulações dos povos quechua, aimara e guarani, e que significa viver em harmonia com a natureza. Contudo, não uma harmonia guiada pela ideia antropocêntrica, de que temos direitos sobre a Terra, mas de que a Natureza também é sujeita de direitos porque um organismo vivo do qual todos fazemos parte sem hierarquia. Ou seja, uma ideia que formula sobre viver em comunidade e com a natureza. Como premissas, o Bem Viver apresenta a reciprocidade, a solidariedade, relacionalidade e a complementariedade. Somos todos organismos vivos interconectados. Nesse sentido, é equivocado pensar a Terra como fonte inesgotável de recursos. Em não sendo, ao esgotá-los, também colocamos em risco não só a existência de outros seres, mas de nós mesmos. 

A proposta de Bem Viver supera a ideia de desenvolvimento ou a proposta de desenvolvimentismo, porque essa última não rompe com a perspectiva equivocada e hierarquizada de viver nesse planeta. Assim sendo, o humano não é centro, mas uma parte desse comum complementar de seres vivos. 

A carta final da Marcha de Mulheres Negras, de 2015, começa evocando ancestrais, povos encantados e originários, povos tradicionais. E o que isso significa? Que é necessário um outro modo de ver e viver o mundo, ou, como a própria carta versa, “um novo pacto civilizatório” que imprima uma “outra gramática política”. Como tenho problema com a ideia de civilização – algo que discutiremos em outros textos por aqui – fico com essa ideia de buscar um outro modo de viver no mundo, de retomar saberes, de construção contra-hegemônica, que subverta o discurso dominante. No limite: uma proposta descolonial e decolonial, que incorpore os códigos culturais e cosmovisões plurais dos povos originários, de forma horizontal.

Para pensar o Bem Viver é preciso ultrapassar uma ideia liberal de construção individual. Não viemos ao mundo sozinhos, conforme diz o ditado. Muito pelo contrário. Para que nós viéssemos ao mundo foram necessários mais do que homem e mulher, óvulo e espermatozoide, mas uma ampla rede que envolveu uma comunidade, mesmo que não no convívio mútuo e cotidiano aproximado. Mas, de algum modo, criou-se uma comunidade. Seja na célula nuclear familiar, seja pela rede de amigos e vizinhos, seja pelo postinho de saúde e seu programa de pré-natal, que conta com uma rede de profissionais, a equipe que acompanhou o parto, etc. No caso de partos em casa, amigos, familiares, doulas. Ou seja, a ideia de comunidade, mesmo que um tanto desconectada e desmembrada, segue como única forma de sobrevivência humana. 

Nesse sentido, pensar e propor o Bem Viver significa construir rede, repensar a organização e o funcionamento do Estado – que, hoje, funciona como instrumento de coerção e não de provimento social. O Bem Viver confronta a ideia eurocêntrica e liberal de bem-estar, porque entende que só alcançamos as esferas da segurança, da liberdade, da identidade, do reconhecimento do outro se compreendemos o comum e o comunitário como pontos primevos de nossa existência. E a Marcha das Mulheres Negras teve, e tem, como premissa a ideia do reconhecimento para o exercício da cidadania, da reconstrução de utopias em que as diferenças sejam valores humanos – afinal, o antônimo de diferença é indiferença e não igualdade. O que quero dizer com isso? Que é preciso romper com a lógica das diferenças sendo trabalhadas para aprofundar desigualdades, quando as diferenças são potencializadoras de nossa existência. 

A pluralidade dinamiza e enriquece a existência humana, porque compreende saberes, experiências, vivências diversas e que, juntas, ou construindo em troca e soma podem multiplicar possibilidades de vidas com direitos. Sob a proposta do Bem Viver, o direito à vida, à humanidade, à ter direitos, à alteridade, como versa a carta da Marcha de Mulheres Negras, são fundamentos políticos, em que não ousamos ser espelhos uns dos outros, mas que vemos possibilidades e complementos ao reconhecer no outro um tanto de nós. 

Essa proposta demanda repensar e redimensionar nosso modelo de produção, que não seja exploratório, mas compensatório, fortalecedor e de troca, em que os recursos naturais são vistos como parte e empréstimo, em que a técnica não é vista como neutra, mas também como espaço que precisa ser transformado e que se contraponha a lógica da acumulação que é excludente e que cria fossos intransponíveis entre 1%, que detém metade da riqueza do mundo, e 99%, em que parte considerável está a margem, outra parte vive na ilusão de fazer parte desse sistema e que poderá sobreviver e uma outra parcela passa a ser exterminada, porque vista como desnecessária. Precisamos romper com tudo isso e construir soluções em diálogo, multidisciplinares, com outro tipo de produção, que nos salvem de sermos meras ferramentas de reprodução de sociabilidades exploratórias. 

Em um de seus trechos, a carta da Marcha das Mulheres Negras afirma que o “Brasil não é um país pobre, mas injusto e desigual”. E assim está o mundo. Contudo, de 2015 para cá muita coisa mudou para pior, com um aprofundamento das desigualdades, em que voltamos a marcar presença no mapa da fome, em uma crise que se agrava com a pandemia. Em que os privilégios são cada vez mais concentrados e assistimos horrorizados problemas básicos de logística para garantir vacinação em um país que, até pouco tempo, era exemplo em campanhas de imunização em massa. Com isso, é um imperativo e uma questão que não podemos mais fugir: precisamos repensar todas as nossas relações e modos de viver e ser. Se trata de mais do que um compromisso político, mas um compromisso, também, ético. É isso ou sobrará pouco ou nada para as futuras gerações, que estão logo na esquina. E, aposto dizer, se continuarmos desse modo, nem sabemos se o futuro um dia se tornará presente. 

Pode parecer um pouco fatalista de minha parte, mas se trata, antes de tudo, de uma compreensão e de uma tomada de consciência sobre o nosso redor. Precisamos ter uma visão global para agirmos em nossas localidades. E construir e fortalecer redes para criarmos ondas de resistência que nos possibilitem sair da defensiva e começar a construir um outro amanhã. Não sou nada pessimista, tão pouco otimista. Fico com a aposta, mas mais do que isso, com a vontade e disposição para outros hábitos e fortalecimento de propostas transformadoras. E é sobre isso que nossa jornada nessa coluna vai tratar: sobre possibilidades para os que querem viver o bem mas que, sobretudo, querem deixar o bem como legado. 

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