A poesia como resistência
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A poesia como resistência

A poesia como resistência

Louise Glück. Nobel de Literatura em 2020

Essa semana o comitê do prêmio mais importante da literatura no mundo escolheu a poeta norte-americana Louise Glück, de 77 anos, para o Nobel de Literatura. Há de se comemorar que além de ter sido uma mulher, foi uma poeta. É a primeira mulher poeta a ganhar o Nobel desde a polonesa Wislawa Szymborska, em 1996, há quase 25 anos. O Prêmio Nobel de Literatura foi concedido a apenas 16 mulheres entre uma centena de homens desde sua criação, em 1901. Antes de Louise, a última delas havia sido a também desconhecida – na época – em terra brasileira, a polonesa Olga Tokarczuk, publicada por aqui pela editora Todavia, que foi premiada em 2018. A mulher mais velha foi Doris Lessing, que estava com 88 anos quando foi premiada em 2007. A primeira foi Selma Lagerlöf, em 1909. Vale lembrar ganhadoras importantes nos anos seguintes como Pearl Buck, em 1938; Gabriela Mistral, em 1945; Nadine Gordimer, em 1991; Toni Morrison, em 1993; e Wislawa Szymborska, em 1996. Desde 1901, foram 117 laureados em 113 premiações. Isso porque em quatro delas, dois nomes foram anunciados como vencedores no mesmo ano. Até hoje, ninguém foi premiado mais de uma vez, e o mais jovem vencedor do prêmio foi Rudyard Kipling, em 1907, aos 41 anos de idade.

Depois de passar por vários processos são elencados cinco finalistas pela Academia Sueca. Entre junho e agosto é realizada a leitura das obras. Em setembro os membros da Academia se reúnem. Em outubro é anunciado o vencedor, que deve obter a maioria dos votos dos dezoito acadêmicos e acadêmicas. Em dezembro é realizada a entrega da premiação em cerimônia de gala que, em tempos de pandemia não deve ocorrer. Louise vai receber em dezembro o equivalente a R$ 6,3 milhões. O mesmo para cada um ou uma dos laureados. E para celebrar ainda mais, o Prêmio Nobel já tem quatro mulheres laureadas neste ano. A primeira foi Andrea Ghez, que dividiu o prêmio com dois cientistas por sua pesquisa em buracos negros. Além dela, Emmanuelle Charpentier e Jennifer A. Doudna ganharam o Prêmio Nobel 2020 em Química pela descoberta do Crispr, método de edição do genoma.

Louise circulava à boca – ou olhos – pequenos pelo país. Em 2016, no jornal Rascunho, André Caramuru Aubert traduziu sete poemas dela. Mas ela não é desconhecida para seus conterrâneos. Louise ganhou em 1992 o prestigiado prêmio Pulitzer por seu livro “The wild iris”. A obra é ambientada em um jardim e a poeta imagina três vozes: flores falando a um poeta-jardineiro, o próprio poeta-jardineiro e uma figura de um deus onisciente. Duas décadas depois, em 2012 foi premiada com o Los Angeles Times Book Prize com a coletânea “Poems 1962-2012”, e em 2014 ela ganhou o também importante prêmio National Book Award com o livro “Faithful and virtuous night”. Considerada por muitos uma das poetas contemporâneas mais talentosas dos Estados Unidos, Glück é reconhecida pela precisão técnica aliada à  sensibilidade, em uma obra que abriga temas relacionados à decepção, solidão, relações familiares e morte, amores fracassados, rejeição, perda e isolamento. O desespero existencial que atravessa tantas outras vidas. A Academia destacou sua antologia publicada em 2006, “Averno”, chamando-a de “magistral” e “uma interpretação visionária do mito da descida de Perséfone ao inferno no cativeiro de Hades, o deus da morte”. Atualmente, Louise é professora de inglês na Universidade de Yale (EUA).

Além de Louise, as editoras brasileiras precisam verter para nossa língua poetas ainda pouquíssimos conhecidos no Brasil como Louis Zukofski (1904-1978)e John Ashbery (1927-2017), que particularmente gosto muito. O livro físico não morreu e nem morrerá. Na década de 1980/1990 a editora Companhia das Letras lançou uma coleção de poesia que marcou gerações. Antologias poéticas de de William Carlos Williams (1883-1963), W. H. Auden (1907-1973), Wallace Stevens (1879-1955), Elizabeth Bishop (1911-1979) e Marianne Moore (1887 – 1972), que foram fundamentais para a minha formação poética e tenho certeza de muitos outros brasileiros. E também tivemos a sorte de ter uma antologia de outro grande poeta norte-americano, Robert Creeley (1926-2005).

 

Para quem não conhece a obra de Louise, um poema seu traduzido por Camila Assad.

“Dizer eu não sinto medo –
Não seria honesto.
Sinto medo da doença, da humilhação.
Como todo mundo, tenho os meus sonhos.
Mas aprendi a escondê-los,
Para me proteger
Da realização: toda felicidade
Atrai a fúria das Sinas.
Elas são irmãs, selvagens –
No final, não há
Emoção, mas inveja”.

 

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