“Só Nós”
Arte & Cultura

“Só Nós”

“Só Nós”

Mulher, negra, jamaicana radicada no Estados Unidos, professora de escrita criativa na universidade de Nova York, ensaísta, dramaturga e poeta, Claudia Rankine é atualmente uma das principais vozes da literatura e do pensamento negro nos Estados Unidos. Ganhadora de prêmios literários importantes, ela teve seu livro mais recente, “Só Nós – uma conversa americana”, publicado no país pela editora Todavia. O livro examina o abismo entre a branquitude – o privilégio branco – e a negritude. Discute o racismo na sociedade americana, mas que ecoa no mundo todo e principalmente no Brasil. Como ela mesma afirma, “os brancos não querem falar de construção racial porque eles se beneficiam do racismo”.

“Só Nós” abriga uma mistura de gêneros literários que reúne poemas da autora, ensaios, fac-símiles, dados estatísticos, reportagens, documentos históricos, fotografias e prints de redes sociais. O título vem de um jogo de palavras intraduzível entre “justice” (justiça) e a expressão “just us” (só nós), trocadilho que ficou famoso quando em uma apresentação, o comediante negro Richard Pryor disse: “Você vai até lá procurando justiça, e o que você encontra: só nós.”

Em 2016, Claudia recebeu a célebre “bolsa para gênios”, distribuída anualmente pela Fundação MacArthur, no valor de US$ 625 mil (o equivalente hoje a mais de 3,3 milhões de Reais). Com a quantia, ela criou o Instituto de Imaginário Racial, que tem como objetivo discutir a complexa construção racial na sociedade americana. O instituto abarca atividades nas artes visuais, literatura, cinema e teatro, e realiza atividades de forma itinerante em cidades como Nova York, Filadélfia, Los Angeles e San Francisco.

Mais prêmios: a invisibilidade visível

Mas esse não é o primeiro livro dela publicado no Brasil. Ano passado a editora Jabuticaba lançou “Cidadã: uma lírica americana”, que investiga as relações raciais nos EUA de hoje, e que se tornou o primeiro e único livro de poesia a entrar na lista de best-sellers de não-ficção do New York Times. Publicado originalmente em 2014, ganhou mais de dez prêmios, entre eles o prestigiado National Book Critics Circle Award em sua categoria; e tal qual “Só Nós” reúne fragmentos de prosa, poesia e ensaios, além de roteiros de videoinstalações, pinturas e frames de vídeos. Em ambos reverberam questões caras à autora, principalmente como brancos e negros podem coabitar o espaço público se equilibrando entre a agressão explícita e a invisibilidade. Mais que tudo, Claudia quer saber qual o lugar do corpo negro no mundo.

Em uma entrevista para o jornalista Leonardo Neiva para a revista Gama, em julho passado, ela afirma que em “todo o mundo há um comprometimento com a supremacia branca, que depende da supressão de pessoas de cor, desde a extinção da população indígena até a escravidão de afrodescendentes e a violência contra a cultura asiática. Em todo o globo, e certamente neste país, também há o tratamento dado aos latino-americanos, que funciona em conjunto com o tratamento dos afro-americanos. Um linchamento histórico similar, a exclusão das moradias e de trabalho. É importante observarmos a branquitude porque geralmente olhamos para a questão pelo ponto de vista das vítimas. Ninguém pergunta por que aquilo acontece. Porque há um investimento cultural, governamental, até global, em estruturas que colocam pessoas brancas à frente das outras e a cultura branca à frente das outras culturas”.

Reagan, Nixon e os macacos

Entre inúmeras informações preciosas, ela expõe dinâmicas sociais e históricas como quando afirma que atualmente 64% dos políticos norte-americanos eleitos são brancos, embora eles representem apenas 31% da população dos EUA. Fala sobre a relação da Ku Klux Klan, criada no fim da Guerra Civil americana, com os Black Codes, leis aprovadas logo depois da guerra nos Estados do Sul para restringir as liberdades de pessoas negras; e cita um áudio de 1971 que revela o então governador da Califórnia na época Ronald Reagan chamando a delegação africana das Nações Unidas de macacos durante um telefonema com o então presidente Richard Nixon. Claudia lembra que 13 anos depois, em 1984, na eleição presidencial, 49 dos 50 Estados americanos votaram em Reagan.

Ali-mas-não-ali

A leitura faz com que o leitor se sinta desafiado. E para eu, um homem branco, a leitura de “Só Nós” me fez olhar para a minha própria branquitude e repensar como é e qual é o lugar que me cabe em um mundo onde o privilégio branco é tão forte que até hoje somos todos confrontados com a escravidão que ainda assombra o presente. Me fez refletir sobre a desconstrução do arquétipo do homem branco e os efeitos a longo prazo das políticas segregacionistas. Os abusos, o apagamento contínuo, a rejeição, a invisibilidade visibilizada pela branquitude dentro de uma estrutura democrática que apoia esse comportamento. Claudia reforça como diz no livro sobre ela e os negros, o seu “status de ali-mas-não-ali numa sociedade historicamente antinegros”.

Um livro experimental e atualíssimo que aborda a questão do racismo de maneira experimental e nada didática, e cuja leitura provoca uma reflexão profunda sobre o racismo mostrando como a violência contra o negro e as desigualdades raciais nos Estados Unidos ecoam e se repetem em inúmeros outros países. Talvez o que Claudia queira de nós leitores é algo de novo, “feito recentemente; uma nova sentença em resposta a todas as minhas perguntas”, como diz em um poema seu no livro.

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