Quando ateiam fogo em uma mulher trans, ateiam fogo em todas nós!
Mulheres e Bem-Viver

Quando ateiam fogo em uma mulher trans, ateiam fogo em todas nós!

Quando ateiam fogo em uma mulher trans, ateiam fogo em todas nós!

 Na semana passada, Roberta, mulher, pessoa em situação de rua, foi queimada viva por um homem jovem. E, me pergunto: por que não ficamos todas nós indignadas?

 

Os tempos não estão nada fáceis. Mas me pergunto constantemente: quando eles não foram difíceis? A sensação de dificuldade, de piora das coisas, ou mesmo de sua melhora, pode ser considerada relacional a quem vive, a quem sente. Quando falam em avanço da repressão, do Estado de exceção, sempre me pergunto sobre quem e de onde estão falando, já que há grupos e populações inteiras que sempre viveram “em exceção”, vistos como marginais natos, construídos simbolicamente como precários e indesejados. Nós, mulheres, já assim fomos vistas. E, de alguma maneira, ainda não alcançamos, se não em letra legislativa, a igualdade que lutamos por séculos para conquistar. 

Mesmo as lutas e formulações por igualdade entre homens e mulheres deixaram, e ainda deixam, a desejar, penso eu. Afinal, quando você pensa em “mulher”, qual a imagem que lhe vem à cabeça? Um exemplo de uma ideia paradigmática de mulher era facilmente encontrada em grandes buscadores online. Em geral, a imagem correspondente a “mulher” era de uma mulher branca, magra e sorridente. Após muitas contestações de movimentos e lideranças de mulheres negras, muitos buscadores iniciaram procedimentos internos para que seus algoritmos apresentem resultados mais diversos. Mas, os resultados seguem falhos, ao apresentar “mulher” ainda de modo unicamente cisgênero. 

Quando mulheres negras, indígenas, indianas, árabes, passaram a questionar uma ideia fixada e ideal de mulher, apresentando o questionamento para a nossa diversidade interna, pudemos vislumbrar um avanço. Somos diversas entre nós. Parecia que, então, novos ventos soprariam, rumo a uma ideia radical de que ser diferente não é sinônimo para ser desigual. Só parecia.

Na semana passada, Roberta, mulher, pessoa em situação de rua, foi queimada viva por um homem jovem. Segundo as reportagens, um adolescente que, ao tentar fugir, foi detido por policiais militares que faziam ronda nas proximidades. Roberta, que segue internada, teve 40% do seu corpo queimado e foi submetida a procedimento de amputação do braço, devido à gravidade de seus ferimentos. Roberta é uma mulher trans. Roberta é uma mulher. E, me pergunto: por que não ficamos todas nós indignadas? Seguimos reproduzindo um modelo de hierarquização entre nós, que define quais de nós temos direitos e quais não? O ser mulher há muito não está preso a ideias biologicas: não somos definidas por um órgão sexual. Somos amplas, diversas, nos vemos e somos vistas, vivemos e nos reconhecemos como queremos. Mais do que nunca essa bandeira da diversidade, do respeito precisa ser evidenciada. Portanto, para mim, esse sequer é um debate.

O que logo me remeteu a tentativa de homicídio de Roberta foi um símbolo de repressão e  violência muito conhecido por nós mulheres: o fogo. Do século IV ao século XVIII, a Inquisição perseguiu pessoas que consideravam suspeitas simplesmente por terem uma fé diferente, por não atenderem a padrões de vida determinados em sociedade e, até mesmo, por disputas políticas, como muitas feministas, como Silvia Federici, apontam a “caça às bruxas” aliada a interesses econômicos. Estudos estimam que entre 40 e 60 mil pessoas foram condenadas à morte em toda a Europa apenas entre o final do século XVI e final do século XVII, sendo 85% dessas pessoas… mulheres.

As mulheres eram acusadas de bruxaria, de terem realizado atos sexuais com o Diabo, por motivações torpes. Há relatos de crianças condenadas à fogueira por uma afirmativa de serem bruxas quando, hoje, seus relatos facilmente seriam compreendidos por profissionais como um modo metafórico para falar de abusos sexuais sofridos. Milhares de mulheres foram torturadas e queimadas vivas simplesmente por serem parteiras, por terem conhecimentos medicinais e de cura naturais, em uma “disputa entre os saberes especializados e os saberes populares não profissionalizados”, em um momento de mudanças no modelo organizacional político e econômico das sociedades. O manual “Malleus Maleficarum”, de caça às bruxas, apresentava o apetite sexual insaciável das mulheres como característica de bruxaria. Ora, hoje, conseguimos compreender que se trata, em verdade, do controle político sobre os corpos das mulheres. Mas, sob esse argumento religioso, encobrindo interesses políticos e econômicos, mulheres foram perseguidas, reposicionadas de forma hierárquica nas sociedades, submetidas a controle masculino. Essas execuções eram antecipadas por torturas psicológicas e físicas e com fortes indícios sádicos.

Há alguns anos, o Brasil bate recorde e se mantém no pódio como país que mais mata pessoas transexuais no mundo. Segundo o Observatório de Assassinatos Trans, nos primeiros nove meses de 2020, foram 124 pessoas transexuais assassinadas no país. Como aponta a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), ocorre um assassinato de pessoa trans a cada dois dias no Brasil. Todas as vítimas: mulheres trans, em sua maioria negras, pobres e trabalhadoras sexuais. A Antra, inclusive, denuncia que não há acompanhamento e registro oficial dos casos no país. 

O fogo era um recurso utilizado e compreendido como “melhor” pela Inquisição por eliminar o sangue e, assim, “evitar contaminação”. Ao pensar em Roberta e no fogo utilizado como instrumento sádico da tentativa de homicídio, a alusão foi rápida e direta: a tentativa de eliminação completa de uma vida; a hierarquização de humanidade; a relação perversa que se faz da identidade de gênero com “apetite sexual insaciável”, que precisaria ser punido. Ao pensar em Roberta, refleti sobre as milhares de mulheres assassinadas pelo enforcamento, estrangulamento e pelo fogo da tortura, do sadismo e da violência. 

Muito comum, hoje em dia, que mulheres que se reivindicam feministas lancem mão da imagem da bruxa. A frase “somos as filhas das bruxas que vocês não conseguiram queimar” aparece com força em muitos 8 de março. Mas quem não está sendo queimada? Quem não está sendo violentada? Quais são os corpos e pessoas vistas como desviantes, como perigosas, maléficas e que estão submetidas aos mais dilacerantes modos de violência? Bruxas seguem sendo queimadas. Mulheres seguem sendo queimadas. 

A Inquisição já não existe mais porque, em verdade, não é mais necessário que exista como instituição porque está incrustada em nossas sociedades, nas relações sociais estabelecidas, em como tratamos e reconhecemos ou não o outro, a outra. Sobre como e porquê consideramos, ainda, “a outra lá” como algo pejorativo e portanto passível de escrutínio e julgamento. O transfeminicídio, ou seja, o assassinato de mulheres trans pelo fato de serem mulheres trans, segue em ocorrência de centenas, de milhares. Muitos filmados e postados em redes sociais, as praças públicas da Inquisição contemporânea. É preciso que entendamos de uma vez por todas que enquanto Roberta não for reconhecida, considerada tão humana quanto todas nós queremos ser vistas, parte de nós que não construir, ao menos, empatia estará apoiando fogueiras; enquanto outras de nós, que ousam falar sobre isso, estaremos sendo queimadas com ela. Quando ateiam fogo em uma mulher, ateiam fogo em todas nós. Ou não estaremos fazendo jus à memória das milhares que já se foram. Eu escolho por compreender algum propósito, ou alguma tarefa de minha parte, ligada a um laço de irmandade radical e ancestral. 

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