Fazer o Bem para alcançar o Bem
Mulheres e Bem-Viver

Fazer o Bem para alcançar o Bem

Fazer o Bem para alcançar o Bem

Pelo Bem-Viver somos questionados a pensar outras formas de viver e nos ver também Natureza.

Quando fui convidada para contribuir com uma coluna por aqui, meu coração de encheu de Bem. E, como não acredito em acaso – não que haja descrédito nele – imaginei que me sentir bem com um convite para escrever para um projeto que tem no “Bem” um centro, só poderia conotar algo de bom. E passei a refletir: o Bem é uma abstração ou uma prática?

Não foi muito difícil decidir que o nome de nossa coluna-jornada envolveria o Bem-viver. E, para isso, também falaremos sobre os sentidos que essa junção entre vida-vivência e Bem tomaram em formulações políticas que pensam uma transformação radical sobre nós mesmas e sobre o mundo. Sim, radical. Sem medos de palavra alguma, a radicalidade reside no fato de pensar as coisas a partir da raiz delas, como bem pontua a intelectual Angela Davis. Por isso que pensar sobre o Bem, me pareceu interessante para iniciarmos essa nossa conversa que pretendo que seja soma e multiplicação, como bem aprendo tempo-todo com a poeta e pensadora-fazedora Lua Leça. 

Ao pensar sobre o “Bem” o que é remetido em sua memória? Em geral, pensamos o Bem como boas ações, boas práticas que confluem para um objetivo de alcance do Bem. Mas, se as boas práticas levam ao Bem, elas não seriam em si o Bem, certo?

O Bem seria, então, só abstrato ou algo também palpável? Seria o Bem o que desejamos? E será que podemos alcançá-lo? O Bem estaria ligado ao que nos é agradável, belo e sublime?

Para o filósofo grego Platão, o Bem seria o modo de buscar a Verdade e a Justiça. Ou seja, a nossa compreensão sobre o mundo seria alcançada a partir do momento que tenhamos a capacidade de contemplar, no sentido filosófico, e fazer o Bem. O Bem seria, então, uma essência geradora das boas coisas, uma ideia de que ao ter no Bem uma prática, alcançaremos a Verdade, o Justo. Nesse sentido, o Bem é também algo a ser almejado e desejado.

Já para o filósofo, também grego, Aristóteles, “o Bem é aquilo a que todas as coisas tendem”. Essa afirmação foi por ele formulada em “Ética a Nicômano”. Ou seja, o Bem não seria um meio, mas uma finalidade. Para Aristóteles, alcançamos o “saber supremo” quando atingimos o Bem. Esse, contudo, só pode ser atingido de forma coletiva. Ou seja, para Aristóteles, não será Bem se individual, se para satisfazer-nos no particular ou se buscamos algum modo de sermos reconhecidos e aplaudidos por isso. O Bem deve ser perseguido simplesmente por ser… Bem. E, para ele, a ferramenta coletiva para alcançar o Bem é a Política. Para o filósofo, a Política é uma ciência que deve objetivar a felicidade. Essa, por sua vez, será alcançado ao aliarmos Ética, que é do campo individual, e Política, do campo da comunidade. Essa última, por sua vez, se é sempre formada para garantir algum bem. Nesse sentido, o bem comum, tão usual hoje em dia, deve ser um objetivo dessa coletividade organizada em cidade. 

O “Bem” sempre foi objeto de reflexão da Filosofia e eu não seria capaz de repassar todos os que se debruçaram por pensar seus significados aqui. Mas, considero essas formulações de Platão e Aristóteles, mesmo tão diversas entre si, porque há elementos importantes em ambas: no primeiro, o Bem como essência geradora de coisas; e, no segundo, do Bem como uma finalidade. 

E acho que tem muito a ver pensar em como entendemos o Bem e articulação a Bemglo, já que há o Bem em sua ideia mater, tanto do bem como essência para produzir coisas positivas quanto da ideia de movimento, de coletividade, como finalidade a partir de uma prática, ética e ação cotidiana. E isso tem muito a ver com o que discutiremos aqui articulado a ideia de “bem-viver”, que falarei muito brevemente, porque nos aprofundaremos sobre essa proposta em muitos outros encontros.

Bem-Viver é uma outra concepção de mundo, oriunda de povos originários, indígenas andinos – aimaras, quechua e guaranis. Para os Aimara, Suma Qamaña; para os Quechua, Sumak Kawsay; e para os Guarani, Teko Porã, o Bem-Viver significa, em breves linhas, que somos todos Natureza, que somos todos comunidade interligada. Uma visão que privilegia a responsabilidade social com o coletivo ante o individual, como uma construção ética. Ou seja, nesse conceito, o Bem é alcançado pelo respeito ao outro, pela harmonia e solidariedade. 

Não há como estarmos bem se outros seres vivos do planeta não estão bem. Se somos natureza tanto quanto uma árvore, uma nascente, um boi ou uma galinha, não podemos conceber a dicotomia Natureza/Cultura, como se fôssemos superiores e todos os outros seres são os hostis nesse ambiente que coabitamos. Nessa concepção, não podemos permanecer na ideia fracassada, e que tem nos levado rumo à extinção, de que podemos dominar outros seres de maneira exploratória sem que vivamos as consequências disso. Por serem vivos, há respostas. 

Pelo Bem-Viver somos questionados a pensar outras formas de viver, nos contrapondo a uma ideia de produção e desenvolvimento infinitos, pensando outros modos de produção e outras formas de organização da vida social. E isso passa por tudo: como nos vestimos, nos deslocamos, nos alimentamos. Como vivemos.

Essa ideia tem me chamado atenção como constituidora do que penso sobre mim e sobre o mundo. Em 2015, milhares de mulheres negras marcharam em Brasília por direitos. No lema: contra a violência, o genocídio e pelo Bem-Viver. Para além de um desejo de vida, ali estava explícito a relação direta que se estabelecia com a terra, com as nossas origens e havia muito de formulação questionadora a como estamos vivendo. Mas, fundamentalmente, sobre o que queremos. 

Essas são algumas das relações e conversas que quero estabelecer com você por aqui. Como estamos repensando o mundo, quais as propostas que nos tiram da zona de conforto predatório e nos apontam para o conforto harmônico e saudável? Não muito um espaço de respostas, mas de muitas perguntas, conexões, somatória de ideias. A gente vai construindo o Bem juntos, juntas e juntes, em diálogo, em tensões que produzem confluência. É assim que a gente vive, prática e alcança o Bem.

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