Valorização de quem faz
Atitude Bemglô

Valorização de quem faz

Valorização de quem faz
Hoje é o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. E o que o trabalho escravo tem a ver com o consumo?
Em dois mil e treze, no dia vinte e quatro de abril, mais de mil e cem pessoas morreram após o desabamento do edifício Rana Plaza, prédio que abrigava fábricas têxteis na periferia de Daca, em Bangladesh. Mais de dois mil e quinhentos funcionários ficaram feridos pela queda do imóvel, que deveria ter sido interditado, uma vez que suas paredes anunciaram a tragédia que estava a caminho – mas os proprietários se negaram a ouvir e obrigaram os funcionários a trabalhar.
E por que? Por que os proprietários dessas fábricas insistiram com os trabalhos? Por que descumpriram as normas de segurança, os requisitos mínimos de proteção?
As fábricas ilegais não atuaram sozinhas, elas estavam relacionadas às grandes corporações. Com mão de obra barata, Bangladesh foi um grande atrativo para empresas de diversos países produzirem suas incessantes coleções – uma característica forte do fast fashion: baixo custo de produção, coleções efêmeras que induzem o constante consumo de roupas novas, “atuais” e economicamente acessíveis.
Em sua maioria, são mulheres e menores de idade que trabalham na confecção dessas roupas. Para reduzir o custo das peças, as oficinas de costura são desvinculadas, subcontratadas e o pagamento feito por peça produzida (o que reduz ao máximo os custos). A soma de mão de obra barata, novidade constante no mercado, acaba estimulando o consumo contínuo, onde os principais beneficiados são os donos das grandes marcas.
E o Brasil? Infelizmente não saiu ileso.
Em dois mil e dez, duas crianças de uma família boliviana que vivia e trabalhava numa oficina de costura no bairro Brás, São Paulo, acabaram morrendo em um incêndio. Em dois mil e onze, uma inspeção realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego encontrou, também na cidade de São Paulo, imigrantes bolivianos e peruanos em condições análogas à escravidão em uma fábrica que produzia roupas para uma grande marca. Esses ambientes contam com péssimas condições de trabalho, pagamentos mínimos por jornadas exaustivas. Não muito raro – servidão por dívida. Em Bangladesh a força de trabalho, em sua maioria, são de camponeses. Aqui, muito comum, por imigrantes de países vizinhos que buscam melhores condições de vida.
Como reflexo da tragédia anunciada de Bangladesh, surge o movimento Fashion Revolution. Resposta à precarização do trabalho têxtil e desumanização da moda. Reunindo profissionais que acreditam em uma moda limpa, justa e consciente, sua proposta é “conscientizar sobre os impactos socioambientais do setor, celebrar as pessoas por trás das roupas, incentivar a transparência e fomentar a sustentabilidade.”. A campanha #QuemFezMinhasRoupas surge para conscientizar sobre o custo da moda e suas fases de produção e consumo. A princípio como Fashion Revolution Day, se estendeu para a Semana Fashion Revolution, que promove atividades com voluntários em mais de cem países. Em dois mil e quatorze, o movimento chegou ao Brasil e começou um trabalho em parceria com diversos profissionais do setor na realização de atividades, como o Fórum Fashion Revolution, o Índice de Transparência da Moda e o Projeto Jovens Revolucionários.
Tudo isso para garantir uma moda consciente. O lucro jamais deve gerar mortes. É necessário repensar e desacelerar o ritmo de consumo têxtil. É necessário saber por quais mãos passaram as roupas que imprimem parte da nossa personalidade. Não podemos carregar nos nossos corpos a maciez de um tecido vindouro de sofrimento. É tempo de mudança e conscientização!
Vale ressaltar que ilustramos o trabalho escravo à partir da moda, mas não inúmeros os segmentos do consumo que financiam produtos provenientes desumanos e sem ética.
Em memória de todos que se foram pela precarização da indústria têxtil. Não são números, são vidas! Está feito o nosso convite: vamos valorizar quem faz as nossas roupas? Saber sua origem, sua responsabilidade e seu peso. Vem com a gente?

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