Julho das Pretas: Viva Tereza de Benguela!
Mulheres e Bem-Viver

Julho das Pretas: Viva Tereza de Benguela!

Julho das Pretas: Viva Tereza de Benguela!

Desde 2014 que o dia 25 de julho é o Dia Nacional Tereza de Benguela. Para que seu espírito inspire todas nós. A data não foi escolhida à toa. Desde 1992, após a realização do 1o Encontro de Mulheres Negras da  América Latina e do Caribe, na República Dominicana, que o dia 25 de julho é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esse marco é importante para delimitar a necessidade de uma perspectiva interseccional para lidar com as desigualdades, posto que mulheres negras ocupam os piores indicadores sociais e econômicos em países latino-americanos. 

 

Quando pensamos em heróis, que não sejam nossos pais, mães e avós, quem são as figuras a que recorremos? Por que falar de heroínas parece algo tão difícil e distante? A História é múltipla e nada contínua, mas cheia de vai e vem, com diversificados espectros e contribuições. Mas ocorre que há os que têm o poder de contar histórias, os que têm o poder de narrar e documentar a história. E esses, em geral, foram homens. Nada, ou bem pouco, preocupados em garantir as histórias de milhares de mulheres que se sobressaíram em momentos singulares, únicos e históricos. Uma dessas mulheres é Tereza de Benguela.

Eu compreendo se você não conhecê-la, exatamente pelo início desse texto. Há os que dirão que isso não passa de uma bobagem. O que importa são as heroínas anônimas. Não tenho dúvidas de que as incontáveis terezas, marias carolinas, conceições, cláudias são heroínas do cotidiano. Contudo, símbolos são importantes. Humanos, no geral, gostam de símbolos, porque eles nos engajam, nos animam, nos apresentam perspectiva. E falar em heroínas em um país dos mais violentos para uma mulher viver, como é o Brasil, é imensamente importante. Assim, é resgatada a trajetória e contribuição de Tereza de Benguela para o quê e como compreendemos Liberdade.

Não se sabe ao certo quando nasceu, questão corriqueira em registros de escravizados no Brasil, mas se sabe quando foi assassinada: em 1795, quando o quilombo do Quariterê, no estado do Mato Grosso, foi destruído violentamente pelos bandeirantes contratados pela, então, capitania. Tereza teve sua cabeça cortada e exposta no centro do quilombo. O ritual macabro era o discurso da violência para o terror, do exemplo para repressão. Mas a História é implacável e sua voz e mensagem se reergueram com a força para ser farol para milhões de mulheres brasileiras. E sua história passou a ser contada. Por mais de 60 anos, Tereza de Benguela liderou um modelo de sociedade diverso aos moldes imperiais europeus. O quilombo era um espaço de resistência e também uma instituição que abrigava e unia negros, indígenas e brancos contrários a escravização em uma experiência do comum. Para terem ideia, o quilombo liderado por Tereza de Benguela tinha um parlamento constituído e pelo qual eram decididas todas as principais questões do território, da vida em comunidade. Naquele solo da resistência e da liberdade se plantava milho, feijão, mandioca, banana e seus excedentes, após serem divididos por todos, eram vendidos para fora. Ou seja, os quilombos foram brutalmente destruídos não somente por ser um espaço para o qual escravizados fugiam, mas porque apontavam para outro modelo de sociedade, na qual mesmo na existência de lideranças, de reis e rainhas, as principais questões eram comungadas e tudo que se produzia era dividido a partir das necessidades de seus moradores. A cabeça de Tereza de Benguela foi exposta porque sua liderança significava muito mais que um sonho de Liberdade, mas um sonho de Comunidade e Prosperidade partilhada, um sonho de Sustentabilidade, um sonho de respeito à Terra e de convívio em Igualdade com os diferentes. 

Desde 2014 que o dia 25 de julho é o Dia Nacional Tereza de Benguela. Para que seu espírito inspire todas nós. A data não foi escolhida à toa. Desde 1992, após a realização do 1o Encontro de Mulheres Negras da  América Latina e do Caribe, na República Dominicana, que o dia 25 de julho é o Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esse marco é importante para delimitar a necessidade de uma perspectiva interseccional para lidar com as desigualdades, posto que mulheres negras ocupam os piores indicadores sociais e econômicos em países latino-americanos. 

De um dia, a data foi ganhando o tamanho necessário a cada jornada e, hoje, fala-se em “Julho das Pretas”, um mês inteiro para lembrar que só avançaremos enquanto sociedade quando todas pudermos avançar e melhorar nossas vidas. Se estamos falando das mulheres negras com os piores indicadores, se suas vidas melhoram, a vida de toda a sociedade melhora também. É um mês de denúncia, mas é também um mês de celebração, de reivindicação ao humano, de reivindicação da liberdade e da justiça. Ao aliar essa data internacional a trajetória de Tereza de Benguela, estamos aludindo àqueles ideias que unia negros, indígenas e brancos que faziam do antirracismo um discurso-ação. Ideias que aludem à força da resistência e da vida no comum. 

A partir de agora, quando for pensar em heróis… sobre quais heroínas você vai falar?

 

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