Beguinas: ontem e hoje
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Beguinas: ontem e hoje

Beguinas: ontem e hoje

Empreendedorismo e empoderamento feminino são duas palavras que chegaram para ficar de vez no vocabulário social e econômico contemporâneo, não só no Brasil, mas no mundo. Mas essas duas palavras ecoam no mundo desde muito antes. Ao longo da história, por exemplo, sempre houveram mulheres ou movimentos femininos que surgiram para enfrentar o poder masculino, principalmente na igreja. Vale a pena lembrar que a ideia da inferioridade feminina remonta aos tempos bíblicos, e foi muito influenciada pela imagem negativa que a tradição judaica criou em torno da primeira mulher. Eva, uma pecadora, incapaz de resistir à tentação e, que por isso, precisou “da tutela masculina” de Adão.

Lendo dias destes a poeta portuguesa Maria Gabriela Llansol (1931-2008) lembrei das beguinas, que praticavam um modelo de resistência feminina contra imposições do poder da igreja na idade média. Embora o feminismo seja um movimento social organizado que surgiu no século 20, acredito que as beguinas, quiçá, foram o mais antigo movimento feminino do mundo. Afinal, um dos seus objetivos era o desejo por independência que a autoridade patriarcal representava.

As beguinas

As beguinas eram mulheres leigas católicas que praticavam uma vida ascética em comum. Elas procuraram viver fora do claustro, sem estarem vinculadas às regras de clausura nem as de votos públicos. Elas criaram os beguinários, que eram formados em geral por casas com paredes geminadas ou moradias individuais que compunham uma comunidade. Surgiram no século 13, e apareceram primeiro nos Países Baixos (Bélgica e Holanda), mas beguinatos também foram criados na França, Alemanha, Itália e Espanha. Elas não viveram apenas vidas de oração e serviço, cuidando dos doentes e dos pobres. Além das pregações e orientações espirituais que praticavam, tinham diversas habilidades manuais, cozinhavam, plantavam e colhiam, escreviam. Cada comunidade tinha suas próprias regras e não havia a obrigação do celibato e nem vergonha se uma delas escolhesse deixar o beguinário para se casar. Aliás, a comunidade servia como refúgio para aquelas que não queriam casar ou que poderiam ser forçadas ao casamento. E quando alguma beguina engravidava ela podia ir embora para ter a criança, e muitas retornavam ao beguinário para criar o filho junto com outras crianças.

E algumas destas mulheres foram notáveis como Hadewijch, Matilde de Magdeburg, Marguerite Porete, Beatriz de Nazaré, Teresa De Ávila e muitas outras, muitas delas escritoras que uniam espiritualidade e misticismo em seus escritos. Mas penso que com certeza a primeira beguina deve ter sido a Hildegard von Bingen (1098-1179), que entrou em um convento aos oito anos de idade, mas só por volta dos 40 anos é que iniciou sua vida pública tornando-se uma das mulheres mais influentes da Europa na Idade Média. Tanto, que Reis e Papas se correspondiam com ela pedindo conselhos. Teóloga, escritora, compositora e estudiosa de plantas medicinais, em uma época em que só os homens ensinavam a palavra de Deus, ela viajou pela Europa pregando, além de escrever sobre as visões e mensagens que dizia receber diretamente de Deus.

A Igreja X Beguinas

Alguns beguinários se tornaram centros místicos importantes e, por sua independência, reverberavam crenças divergentes da doutrina católica. Devido à pressão das autoridades eclesiásticas, as beguinas gradualmente foram desaparecendo. A igreja queria erradicar completamente as obras destas mulheres. Num primeiro momento, elas foram toleradas e até mesmo encorajadas por representarem um movimento religioso útil para o povo. Mas pelo nível de liberdade que desfrutavam entre as mulheres medievais, e por estabelecerem formas de vida religiosa fora da estrutura do catolicismo, a relação delas com a Igreja Católica foi bem conturbada. O clero, masculino, não as viu com bons olhos. Em 1311, o Concílio de Vienne, que além de retirar o apoio papal aos Cavaleiros Templários por influência do Rei da França, Filipe IV, condenou-as e acusaram as beguinas de heresia. Algumas chegaram, inclusive, a ser queimadas vivas.

Não há também como esquecer que a sociedade feudal foi extremamente patriarcal, sendo dominada por homens que eram em sua maioria senhores feudais, cavaleiros, padres e monjes. Para eles, o papel que a mulher deveria protagonizar era ser dependente do pai e do marido, e ser submissa. Na Idade Média os únicos espaços reservados para a mulher eras os privados. A casa do pai, a casa do marido ou o convento. Juntando a isso o fato de que a Igreja Católica depositava na mulher a representação dos perigos da carne e do espírito. Elas foram perseguidas. Embora – paradoxalmente – a vida religiosa era praticamente a única possibilidade de desenvolvimento intelectual para as mulheres daquela época.

Beguinas contemporâneas?

Nos tempos atuais o empoderamento e empreendedorismo que as beguinas já exerciam séculos atrás pode ser materializado nas ações coletivas que têm como protagonistas mulheres. No Brasil, em 2019, de acordo com o relatório executivo do Sebrae, 50% dos empreendedores que estão na fase inicial são mulheres, ou seja, mais de 16 milhões de mulheres estão atuando no mercado empreendedor. E em geral, as mulheres possuem escolaridade maior que os homens, com 60% delas estando por concluir cursos superiores, mesmo ganhando em média 17% a menos que os homens com a mesmo nível de instrução e mesma faixa etária.

Não é à toa que 90% do artesanato brasileiro é produzido por mulheres que estão em todo o País, tanto nas regiões periféricas, como em comunidades rurais e indígenas. Seja na periferia de São Paulo, como as bordadeiras do Conjunto Habitacional Cingapura, em São Paulo; ou como as rendeiras que vivem em cidades do agreste da minha terra, Alagoas; e as ceramistas do Vale de Jequitinhonha, em Minas Gerais; entre tantas outras comunidades tradicionais distantes dos grandes centros urbanos. O trabalho dessas milhares de artesãs, muitas delas indígenas, quilombolas ou ribeirinhas, além de movimentar a economia criativa, também ajuda – e muito – a elas superarem diversos estigmas, não só o que é relativo ao gênero, mas também a falta de acesso a recursos econômicos e principalmente a baixa escolaridade. E é por meio do artesanato que elas também melhoram sua qualidade de vida e autoestima. No ano passado, por exemplo, as rendeiras do Cariri pernambucano lançaram uma coleção de vestidos criada em parceria com o estilista mineiro Ronaldo Fraga. Através de um projeto de estímulo à produção da renda renascença, o estilista desenvolveu uma coleção com mais de 100 rendeiras usando a tradição com linguagem de moda e inspiração nas artes plásticas do Estado.

Afeto, movimento, ação

Para finalizar lembro de dois exemplos de ações que têm as mulheres como eixos. O MÃOS – Movimento de Artesãs e Ofícios, em São Paulo, que busca pesquisar e difundir os fazeres brasileiros, e que ​realiza ações que visam a criação de espaço de fala, a reconexão com nossa ancestralidade (aprender com o passado para transformar o presente) e a transmissão dos saberes e fazeres tradicionais para as gerações futuras. E também a Artesol, uma ONG criada há 20 anos pela antropóloga Ruth Cardoso para promover o artesanato brasileiro, cujo objetivo é fortalecer a cadeia do artesanato no âmbito da economia criativa e ampliar o impacto do projeto que hoje já beneficia 120 núcleos de artesãos. Ações, comunidades, movimentos que [re]conhecem e valorizam a origem, a história, como, onde e por quem foi feito. O que nestes tempos pandemônicos é um baita sinal de consciência, de respeito e de afeto.

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