São Paulo para pessoas: Felipe Morozini
Arte & Cultura

São Paulo para pessoas: Felipe Morozini

São Paulo para pessoas: Felipe Morozini

Felipe Morozini é fotógrafo, designer, e um morador de São Paulo que compreende que a cidade seja feita para pessoas e ocupada por elas. Há 19 anos vive com vista frontal para o Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão, e desde 2014 compõe a Associação Parque Minhocão, que defende a reocupação do elevado não mais por carros, mas por pessoas. 

Formado em Direito pela Universidade Mackenzie, foi em 2000, trabalhando na Editora Abril e com uma câmera fotográfica em mãos, que Felipe descobriu gosto pela fotografia. Desde então, migrou para as artes. Em suas intervenções e projetos, seu olhar enquanto artista e morador da grande cidade é latente.

“Enquanto artista, vejo São Paulo da maneira mais inspiradora que pode ter, porque não é uma cidade fácil, então você precisa imaginar as coisas, criar um jeito de sobreviver. Acho que São Paulo é meio sobre isso: como sua criatividade pode transformar o lugar que você está em um lugar melhor.

São Paulo é a maior cidade do país e uma das maiores do mundo, com cerca de 21 milhões de habitantes em toda a sua região metropolitana. Polo central e econômico do país, a cidade ainda sofre com infraestrutura, ordenamento urbano e se encontra em um processo constante de reurbanização. Como aponta o Estadão, há 10 anos haviam apenas 25 parques na cidade. Hoje, são 106. Mas para além dos números, como esses espaços são aproveitados?

Felipe Morozini e o Parque Minhocão

O Elevado Presidente João Goulart foi construído em 1971 e chamado inicialmente de Elevado Presidente Costa e Silva. Sua renomeação ocorreu em 2016, quando o projeto de lei 288/2014 revogou o decreto de seu primeiro nome,  homenagem ao presidente da Ditadura Militar.

Desde sua construção, a via expressa com 3,4 quilômetros de extensão do centro da cidade à Barra Funda na zona oeste, gerou polêmica. Isso porque, apesar do pretexto de desafogar o tráfego na região, teve congestionamento logo no primeiro dia e ao longo dos anos apresentou outros novos problemas, como o barulho ensurdecedor aos moradores de frente ao Minhocão, com janelas há cerca de 5 metros de distância.

É de frente para ele que Felipe Morozini vive, no antigo apartamento da família. De sua janela, além de fotografar a rotina da cidade, pôde observar o quão a via afetava a sua própria rotina e de vizinhos.

“Não é uma causa nem uma paixão. O que aconteceu chama realidade. Eu moro na frente do Minhocão há 20 anos e sei como é difícil morar aqui. Percebi que o meu vizinho estava sofrendo, percebi que várias pessoas estavam sofrendo os danos decorrentes da construção do Minhocão. E isso me moveu para onde estou hoje.”

Série Dreamer: retratos de sua janela que incorporam o ser e a cidade. (Fotos: Reprodução/Facebook)

Ao lado de Athos Comolatti e um grupo de cerca de 20 pessoas, atua desde 2014 com a Associação Parque Minhocão, na tentativa de transformar o elevado em um parque suspenso e linear como o High Line, em Nova York, construído em uma antiga linha férrea.

“Moro no mesmo lugar há 19 anos e a transformação do elevado em Parque é garantir que você tenha silêncio, que o único barulho que você vai ouvir são crianças brincando, pessoas praticando esporte e pássaros.

Desde os anos 90 já ocorriam aberturas graduais do espaço. No ano passado, após muita atuação da Associação e pressão da população, a lei de regulamentação do Parque Minhocão foi sancionada pela prefeitura, determinando o fechamento da via aos sábados, além dos domingos e feriados, e o funcionamento reduzido nos dias úteis, de 7h às 20h. Fora desse horário, o Elevado torna-se espaço aberto para a população.

“Quanto mais pessoas usarem o Minhocão, mais os olhos estarão nesta região e talvez o governo se interesse em resolver questões sociais. (…) O que mudou desde 2014 é que hoje as pessoas já fazem uso do espaço como parque. Se antes só faltavam as árvores, hoje o parque existe porque o parque são as pessoas. Isso é o mais importante: pessoas decidiram ocupar esse espaço e transformar ele de fato em um parque.”

Arte e Ativismo

Antes mesmo da Associação Parque Minhocão, Felipe Morozini já chamava atenção para o elevado. Em 2009, ao lado de mais de 20 amigos e artistas, colocou em prática a intervenção “Jardim Suspenso da Babilônia”: pintaram com cal flores pelo asfalto do elevado. Ironia, arte e protesto, a ação transformou o asfalto em tela e levou a natureza para uma região predominada por cinza. Não por menos ganhou o prêmio do júri no Festival Babelgun, em Nova York, no mesmo ano.

Sobre lidar com o poder público, Morozini é claro: “balde de água fria”.  Apesar dos avanços a passos lentos, lidar com “interesses escusos” e desinteresses “no bem comum” é o maior desafio. Apesar do decreto municipal que regulamenta a criação do Parque e prevê a desativação do Elevado como conhecemos hoje de forma gradativa, não há previsão concreta para sua transformação no Parque Minhocão como imagina, com verde e áreas de recreação.

Em meio à burocracia, ocupar os espaços públicos e fazer ouvir a voz da população é o método encontrado por ativistas das mais diversas áreas para debater o espaço urbano e as políticas públicas. Quando questionado sobre unir arte e ativismo, Felipe é enfático:

“Cada vez mais a arte tem que ser política. Cada vez mais a arte tem que estar junto dos acontecimentos do nosso cotidiano. Cada vez mais a arte tem que tentar transformar o nosso meio. Se isso é artivismo, então que seja e seja feito exaustivamente até todos terem condições não só de ler e escrever, mas de interpretar textos e sentimentos.”

Acompanhe o trabalho de Felipe Morozini através de suas redes sociais: Instagram, Facebook e Youtube. Não deixe também de apoiar e acompanhar a Associação Parque Minhocão pela página oficial no Facebook. Agradecemos a disponibilidade e apoiamos essa causa pelo Parque e por uma São Paulo para pessoas.


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